MACHÃO CURIAPEBANO DOBRADO PELA FORÇA DA PSICANÁLISE

                         Aristides Theodoro

           ‘Amansa o corcel inflamado’
                     William Blacke
     Nasci em Curiapeba e minha mãe sempre dizia que ficou muito contente, quando ouviu o meu primeiro choro e Salumbilina,velha parteira da região ,com seu sorriso de gengivas encarnadas olhar para ela  e dizer:
   – É minino home,de saco roxo, má fia,rir,rir,rir.
   Cresci num ambiente rude, ouvindo berros de vacas,relinchos de éguas no cio,latidos de cães danados,brigas de galos e canários-da-terra e o meu pai dizer, com insist~encia:
   – Homem que é homem não chora!…
   De início,nunca chorei.Aprendi no dia-a-dia que naquelas brenhas medonhas era preciso de muita macheza , para empurrar a vida.Qauantas vezes, não tive de enfrentar vacas brabas a pontapés,a fim de curar o umbigo dos seus filhotes. Aamansar burros chucho a unha.Outras vezes, de jacaré na cintura e lazarina em punho, cheinhazinha de balas, deparar-me  frente a frente com canguçu faminta,a mirar um  no olho do outro e a bicha piscar primerio,lamber  os bigodes, miar fininho, que nem gato e se esgueirar,temendo a dureza do meu olhar e as balss da minha lazarina. Nunca fui  de temer valentões de feira,os quais botava pra correr, no grito,com a força dos  meus pulmões.Até  que um dia,cansei-me daquela vidinha besta do interior,botei alguns cobres na algibeira,abotoei a fivela do matulão,tomei um trem-de-ferro em Itiúba e fui dar um pulo no São Paulo,onde ao chegar,insinuado por um primo,matriculei-me num curso,do qual ele  falava muito bem.Se me perguntarem o nome do tal curso,não saberei dizer. Só sei que a professorinha era uma  figura simpática,muito culta,um desses tipos de mulé macho, que convence o vivente com aforça da sua argumentação e que colocava fora das suas aulas,sempre no grito,penetras enxeridos e metidos a engraçadinhos,que apenas queriam tumultuar.Fiz bons amigos por ali.Especialmente entre as mulheres.Nunca fui de gostar de homens.Até mesmo quando os cumprimentava,não gostava de estender-lhe a mão.Isso por não saber onde o infeliz andou colocando aa mesma.Até que um dia, a mestra,que convém dizer,chama-se Munique,acho que seus pais se inspiraram na velha cidade alemã,quando aa batizaram; imbuída de teorias literárias,passou a citar uns tais de HermannHess,Nietzche,Cervantes e Tolstói (vejam vocês,nenhum brasileiro)e fez nos eembriagar de Jung e de um francesinho metido a arroz com  casca e muita coceira no fiofó.Um tal de Bachelard, que criara umas teorias malucas que trata do ‘ânimo’ e da ‘ânima’,o que quer dizer, macho e fêmea na mesma pessoa.A princípio,choquei-me com os argumentos apregoados por Munique e pensava comigo mesmo:’Se vê cada uma neste São Paulo!…Comigo não,violão!…Eu sou é homem com H .Nasci homem e morrerei homem.Nada de frescura pra cima de mim.Não.Mas,de tanto insistir a professora e as colegas,tentando mostrar-me o meu lado feminino,ou melhor,de ‘ânima’,uma noite,após ouvir a leitura de um texto afrecalhado do  tal de Bachelard,sobreo assunto,que diz assim: ‘Um único corpo dominado por duas cabeças coroadas.Belo símbolo da dupla exaltação da androginia.A androginia não se oculta numa animaalidade indistinta,nas orígens obscuras da vida.Ela é uma dialética do apogeu.Mostra,vindo de um mesmo ser, a exaltação do animus e da anima.Prepara os devaneios associados do super masculino e do superfeminino.’ 

As minhas colegas Nélia Maria Fernandes, Águida Sarmiento e a Nega Fulo, no barzinho do china pau, na hora do intervalo, argumentaram e tentaram mostrar-me que a mestra estava certa e que todos nós temos porções imensas do “animo” e “anima” escondidos nos mais recôndito dos nossos seres. Voltei pra casa abestalhado, com aquilo no quengo. E perguntei de mim para comigo: “Mas como, logo eu, Osmundino Carriega Soromenho de Jesus malhado, que sempre fui homem com H, chegar na cidade grande e receber de cara uma dose grande de baitolagem?… Não e não. Continuarei a ser homem com H maiúsculo, sem me deixar levar por essa conversa mole desses cabras frescos da capital.”

No dia seguinte, Osmundino Carriega Soromenho de Jesus malhado, que nunca fora dado às leituras, entrou numa livraria, talvez pela primeira vez e saiu dela sobraçando alguns livros de Jung e “A Poética do Devaneio”, do Bachelard, tão enaltecida por Munique. Foi pra casa e mergulhou na leitura das teorias psicanalistas e chegou a se convencer com a força dos argumentos e passou a se autoanalisar e concordar que realmente possuía as duas partes iguais do “animo” e “anima” dentro de si. Ligou para Nélia Maria Fernandes, falaram por quase uma hora sobre o assunto e, desse dia em diante, teve de mudar o seu comportamento, como também o seu guarda-roupas. Comprou calças coloridas, vermelhas, verdes, lilases, rosas; sapatos brancos, vermelhos cinzas e um dia, após tomar banho e se olhar demoradamente, nu, nuelo, no espelho, notou que os peitos, antigamente atrofiados, cheios d pelos duros em volta dos bicos negros, começavam a se desenvolver. Foi aí que teve vontade de ser penetrado, como as mulheres. Pensou consigo mesmo:”Que meu pai, lá do céu ou do inferno, onde estiver, não tenha notícias desses meus pensamentos. Caso contrário, corro sérios riscos de ser jogado da cama no chão, durante o sono, pelo espírito revoltado do velho, que, por certo, argumentaria que não colocou filho no mundo para andar por aí, vestindo calças coloridas coladinhas ao corpo e a se sacodir, feito baitola, macho-franga, viado. Como se diz no sertão.

O certo é que o machão curiapebano, que sempre foi, e não perdia um segundo sem pensar em mulheres, de preferência na horizontal, arrefeceu o seu apetite e passou a sonhar com uma relação onde pudesse fazer o papel da fêmea. Era assim a “anima” se manifestando dentro do homem rude dos sertões. Voltou a pensar no pai e rogou insistentemente a Deus-Nosso-Senhor-jesus-Cristo, que não permitisse que o espírito do progenitor, Macedônio carriega Soromenho de Jesus Malhado, lá de onde estivesse ficasse sabendo de suas vontades. Senão seria capaz de revirar céus e infernos afim de dar-lhe umas bordoadas corretivas e pôr o seu fedelho nos trilhos, antes que fosse tarde demais . pois, segundo as leis do sertão, homem que nasce homem morre homem.

agosto 1, 2006 at 11:39 pm 2 comentários

POEMINHA SEM REALISMO PARA RUTH

Aristides Theodoro

(Para Neli Maria Vieira)

Pois é Ruth,

naquela noite aziaga

o camarada Lincoln com sua figura esquálida

não cantou La Marseillase

nem mom petit Proust

degustou sua última madelaine

também padre Alfredo não a rezou a missa das seis

tudo porque o sol sem pôs ao mei dia

A terra não girou sobre seu eixo

as aves aquáticas foram para o poleiro mais cedo

os cavalos dispararam nas pradarias do espaço

e Balzac não pontuou sua última produção

tudo porque o sol se pôs ao meio dia.

O leiteiro de Minas não vendeu seu leite

o sabiá de Gonçalves Dias não gorjeou na palmeira

o gago Machado de Assis não teve ataque de epilepsia

nem Edgar Allan Poem tomou seu pileque noturno

o asqueroso corvo não repetiu seu nevermore,nevermore

tudo porque o sol se pôs ao meio-dia.

O Cristo no Corcovado

com suas axilas fartas de desodorante barato

gemeu e peidou: ‘fium!…’

Perfumando as tetas poluídas da Garota de Ipanema’.

Tudo porque o sol se pôs ao meio-dia.

Euclides não havia parido seu ‘livro vingador’.

Verlaine não beijou naquela noite a boca fétida de Rimbaud

Dostoievski tremia de frio na cadeia

as ondas oceânicas bêbadas de furia e caos

laambiam as nádegas rosadas e pedregosas de Olinda

tudo porque o sol se pôs ao meio-dia.

Ruth, a coisa foi tenebrosa

o oceano nada pacífico

vomitou seu cardume de baleias na praia

a lua triste,penumbrosa.

Não derramou seu mênstruo de luz aquosa

tudo porque o sol se pôs ao meio-dia.

Castro Alves não palitou seu dente de ouro

Tobias Barreto não vociferou seu último desaforo em

[alemão

Nietzche não invocou naquela noite seu Zaratustra

e  Hitler no íntimo do seu ventre de abutre

já comandava a sua Gestapo sanguinária

tudo porque o sol se pôs ao mei-dia.

O  conde de Tolstói mergulhava em densas trevas

Van Gogh planejava decepar a orelha esquerda

e se lavar em amarelo excremencial

as nuvens celestes se tornaram negras,negras

e Virgolino Ferreira da Silva,o Lampião

ainda não tinha o olho direito vazado

tudo porque o sol se pôs ao meio-dia.

Naquela noite tenebrosa,

escura,macabra,relamapejante,

Rimbaud, que ainda era imberbe e infante,

não havia pensado Une Saison em Enfer

o aanguloso Dante não havia deflorado Beatriz.

Pitágoras, o filósofo grego,

não havia inventado a tabuada de multiplicar

tudo porque o sol se põs ao meio-dia.

Sir Gilberto Freyre nem pensava escrever Casa Grande &

[Senzala

Mussolini com seu queixo de quadrúpede

ainda não havia feito sua pose de arromba

nem o Titanique boiado na baia da Guanabara

tudo porque o sol se  pôs ao meio-dia.

o ritmo do Jazz não balançava el mundo

Beethoven, no Largo da Carioca,dançava carnaval

fumava maconha e compunha A Pastoral.

Estou em dúvidas: nãao sei se Camões já existia

mas seu Cabral já havia gritado ‘terra a vista!..’

e Bocage não havia escrito seu primerio poema pornô.

A Planície Amazônica jáa estava sendo amalgamada

e conspurcada para ser vendida aos mercados mundiais

tudo porque o sol se pôs ao meio-dia.

Do livro homonimo –

Toca Filosófica,09.02.l992

julho 26, 2006 at 11:52 pm Deixe um comentário


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